17.6.13

Filme: O FANTASMA (Portugal, 2000)


Em pleno domingo febril, preso às masmorras do meu castelo íntimo, me deparei com uma dica de filme subversivo feita pelo Sam Drade. O Sam tem o blog Dadagaio, que é uma puta referência no quesito filmes que você deve assistir para curar a ressaca da sua/nossa vidinha medíocre. Ele assina suas mini-resenhas da forma mais despretensiosa do mundo (sem aquela babaquice de querer soar inteligente).

Pois bem, O Fantasma é uma produção portuguesa de 2000. É o primeiro longa do diretor João Pedro Rodrigues. A obra em si possui aquela atmosfera de submundo das grandes metrópoles. O que acontece por debaixo dos panos. As taras irremediáveis, o descontrole autodestrutivo do personagem principal em busca de algo que nem ele, e muito menos nós, podemos definir.

Sexo, muito sexo.

Sérgio, vivido por Ricardo Meneses, é um coletor de lixo que mora numa pensão de quinta e que mantém uma vida sexual desregrada com homens dos mais diferentes tipos. Ele é um jovem mancebo que transpira recusa e resistência à tudo o que o cerca, como se não conspirasse a favor do seu próprio jogo/desejo.

O filme é cru, sem a tal pitada artsy que os cineastas que retratam a realidade gay insistem em tomar como ponto de partida (o que é ótimo). Há cenas altamente excitantes que envolvem nudismo, os famosos banheirões (com direito a sexo oral explícito), boys no chuveiro, sunga molhada – além daquela fantasia de látex colada ao corpo que muitos de nós não resistimos.

O desenrolar do personagem se limita principalmente à satisfação sexual, até que tal atitude se transforma num jogo/tara fora de controle. O tal parceiro frívolo – de uma noite qualquer de sexo casual – passa a ser a vítima que ele encontrou para se perder ainda mais.

Sérgio é um fantasma no corpo de um homem. Não seríamos nós também fantasmas?

O Fantasma é um filme independente que competiu no Festival de Cinema Internacional de Veneza. Venceu na categoria de melhor filme no Festival de Cinema Gay e Lésbico e Nova York, e no Festival de Cinema de Entrevues.


João Pedro Rodrigues é a sensação do momento na minha top list cinematrográfica/obsessiva.

10.6.13

manual do coração gritando


todos somos princesas impossíveis. é que falando em códigos (e no perigo dente de cavalo dos dias) espero muito que você busque nos bosques uma verdade tão pessoal quanto a que eu quero pra mim. uma colcha de retalhos do coração. uma armadura de rostos do absurdo – pois carão é ilusão, mas ainda bem que a gente dorme.

aí o feeling bitch at work nunca foi tão desagradável. aí assumo meu esconderijo atrás do escuro. não me rendo às ciladas. possivelmente você que se diz um barco. eu sou uma boia. só sei boiar, pois eles dizem que a minha loucura é sacanagem. fode aqui, fode ali, se finge de morto. mentira. fugaz como aquela música de bêbado. babacão que não cala a boca. ou que se cala em demasia. ou que o tempo é você mijando às 3 da manhã no meio da rua. um rastro de  paisagens que eu não quero. a superbarra do cigarro queimando entre os dedos. todos nós encarcerados.

uma espécie de verdade que precisa muito ser ecoada. cospe no prato das pobres almas. conspira em alternâncias sobre o que é mau, ruim, tosco, impropério, falta do que fazer. dois mil e dez parece que foi ontem. dois mil e dez que não tem fim. dois mil e dez que se prende ao cu. dois mil e dez que você já esqueceu, querida.
                                             
todos os cristais são dinâmicos
esclareça uma dor enquanto o mundo gira &
os comprimidos que você tomou ao entardecer
recriam doses cavalares de amor plantadas em jarros
de 1,99 no living room dos olhos,

pois eu também não consigo entender o verão
nem mergulhar na piscina
ou crucificar as quatro paredes de domingo
como se você existisse sobre mim

& não houvesse um manual do coração gritando.

5.6.13

podquinta + dfhouse


Se você sobrevive às obscuridades do mundo, você então percebe que nem sempre o início da semana tem cara de monstro. Aí participei do Podquinta #5 (que é o podcast do DFHouse). E falei um pouco sobre escrever e sobre O Impenetrável.


2.6.13

uma espécie de low deep blues


mais uma vez, esse texto que deveria ser poético, segue no encalço da realidade. e você não precisa provar nada diante do mundinho. a ideia surgiu quando imaginei aquela calça de couro e pensei num poema sobre a mais pura verdade do coração. teria o título de LEATHER. sim, motivado por indignações circunstanciais. aí abro a janela para que a claridade me surpreenda. hit me one more time, it´s so amazing. citando britney diante do trono porque é bem legal ser você mesmo no verão ou ao lado de piscinas, como sempre. então pausei demais a produção do livro por culpa do calor, portanto i feel clean and hot sem culpa. não é uma maravilha universal quando você recebe um telefonema perguntando se tudo está bem? okay, escrever porque a sua realidade é isso. porque você precisa disso. porque todas poetas suicidas se cansaram de usar máscaras. e hoje, francesca woodman não me sai da cabeça por míseros segundos. ela, a fotógrafa. tão jovem, tão fresca, tão tudo: menos plástica. não resisto e acendo mais um cigarro, o tempo esquenta, abro mais a janela; a claridade surpreende por mim, por você, por todos nós. hoje eu deitaria e rolaria numa cama de plumas. hoje eu não investigaria o silêncio. e nada de carão tipo whitman.

Imagem: Francesca Woodman

23.5.13

o segredo dos homens que não nos amam


bliss na cabeceira enquanto katherine mansfield se finge de morta. assim observo o mundo, eu e meus olhos de pavão. o que me faz crer que todos os dias são terrivelmente estranhos e todas as pessoas do mundo estão um pouco mortas. então me pergunto qual o segredo dos homens que não nos amam. o segredo dos homens que não nos fodem.

aí uma amiga (também neurótica e absurda) disse que quando você desiste de tudo é que tudo acontece. aí o corporativismo da vida é uma faca de dois gumes: preciso muito que você me convide novamente pro cinema e segure minha mão na hora exata.

por exemplo, eu fico passado quando algumas pessoas (porque são sempre algumas) levam essa cidade à sério demais. eu me pergunto se essa gente não luta contra as barras e superbarras da existência; se essa galera não entende a realidade animalesca na qual você e eu se encaixam (e se complementam).

nós e nossa puta vidinha. e a falta de louça e roupa suja pra lavar.

então você afirma categoricamente que eu não transo o quanto deveria (lógico) – o que é a mais pura verdade; pois pessoas sexualmente ativas são tranquilas e de boa, não é mesmo? mas o lance da coisa é se transar, entendeu? afinal, situações desesperadoras exigem medidas desesperadoras.

esse é o meu desespero: cansado de tanto sol e chuva e dos transtornos de personalidade borderline de plantão.

é neguinho forjando relevância quando o mundo não está legal, quando tudo (mais uma vez e repito) está completamente desprotegido.

por isso sigo forçando a barra e fazendo desse blogspot o meu poço de obsessão, terror e glória. uma mera desculpa para a ausência de orgasmos.

Imagem: Erik Thorsandberg

19.5.13

11.5.13

golfinhos


queria muito escrever um relatório banal (interessante) ou chorar trágicas pitangas após um dia jururu. é incrível, mas as pitangas estão lindas e viçosas; e jururu é o mundo, não eu (sob a perspectiva de virginiano neurótico). a verdade é que a frivolidade das coisas não mais me espanta ou inspira. maravilha, não é mesmo? eu gostaria muito, querido leitor do coração, de narrar (por toda uma eternidade que não caberia na falta do que fazer da internet) todas as nuances da minha vidinha medíocre e da sua também. não me tornei um monstro, nem engolidor de facas, muito menos uma boneca possuída. assumir o que chamam de verdade interior não é coisa de fã de clarice lispector, é simplesmente uma arte, uma afronta ao universo que te engole e cospe o caroço fora. e hoje não posso me render aos drinks. nem ao amor preso às circunstâncias, pois aquele boy montado no cavalo branco partiu sem sequer anotar o número do meu telefone. juro que não derramei lágrimas de sangue. mas o eu trágico cumpriu uma tarde inteira de esperanças positivas. tudo deu errado na hora certa e a minha pele continua a mesma, sem nenhum arranhão. acordei, inclusive, com um pingo de sensibilidade de quem declarou (bêbado) amor ao planeta na noite passada. uma espécie de glamour caótico dos novos tempos, como se eu abortasse uma superbarra tragicômica muito antes dela existir. mas vocês fazem tudo errado: dilaceram questões, transformam autoafirmação em obesidade mórbida, não sustentam a paquera, não racham a conta do bar, insistem no look do dia. nunca tudo esteve tão irrelevante na classe média-whatever de nossos anseios. por sorte, mia farrow esteve aqui e revelou barbaridades sobre o inferno que você também vive.

4.5.13

sobre ser escritor


Numa sexta-feira da vida eu estava com a querida Lola Aronovich (professora-inspiração, cabeça pensante, feminista e autora do blog Escreva Lola Escreva) em sala de aula, pois estávamos prestes a nos aprofundar no conto Theft de Katherine Ann Porter. Mas antes que a aula começasse, Lola, do nada, pediu que eu falasse sobre mim. Apesar da surpresa, esbocei algumas frases soltas a respeito do pseudônimo LaCarne, sobre o meu blog, e que além disso eu sou uma pessoa que escreve. Então ela perguntou sobre quais temas eu abordava. Ainda envergonhado falei que costumo escrever sobre a noite, os amores, os ex-amores, os pés na bunda, os boys, sobre a cidade – tudo voltado num tom poético-catastrófico da vida. A timidez foi tão grande que nem citei que já tive livro lançado e participação de coletânea. Aí me veio na cabeça a grande questão do que é ser considerado escritor, pois no Brasil as pessoas não levam isso a sério. A ignorância pode ser tão constrangedora que em determinadas situações há quem ria da sua cara, afinal, segundo eles, escritor tem que ganhar dinheiro e viver disso – caso contrário, você é mais um ser pedante ou a pessoa mais irrelevante do mundo.

A questão é, quem escreve (independente dos meios ou plataformas onde seu trabalho é publicado) é sim um escritor. É bem verdade que são poucos os que sobrevivem da produção literária no Brasil – enquanto nos Estados Unidos, por exemplo, um autor de bestseller fatura uma baita grana e garante seu pezinho de meia.  Aqui as pessoas não leem, o ensino público é defasado, e a gente vive numa realidade problemática onde questões de vida e morte precisam ser resolvidas. Caio Fernando Abreu disse numa entrevista que as pessoas no Brasil não precisam de literatura, e sim de arroz e feijão. Isso também é uma verdade. Mas independente de temas mais ou menos urgentes, é preciso respeito, informação, educação.

Por vários momentos cruzei com pessoas interessadas em saber mais sobre os meus escritos, enquanto eu mantinha aquele ar constrangido de desconfiança; como se eu não acreditasse em mim, como se eu não enxergasse a relevância do meu ato criativo – mesmo inserido num país onde pessoas morrem de fome por falta de arroz e feijão, onde não há formação de jovens futuros leitores, onde a violência grita cada vez que você põe as fuças fora de casa, onde Felicianos da vida promovem o ódio, o preconceito, a repressão, a falcatrua, a cura-gay.

Então um grande amigo uma vez disse que eu deveria defender com unhas e dentes o que eu sou (isso serve para todas as esferas da vida) e o que produzo. Não sou jornalista, nem publicitário, nem it-boy, nem filhinho de papai, não trabalho com moda, e sou mais um entre os que não sobrevivem da literatura nesse país. A minha formação em Letras numa das melhores universidades públicas do país, garante que eu trabalhe com o que mais gosto e me identifico: a educação. Além disso posso exercer o meu papel de profissional e cidadão (além da revolta contra o sistema), que é fazer o diferencial em sala de aula, contribuindo com o que aprendi através da vida e dos livros para que os meus alunos do ensino público exerçam o senso crítico.

Esse desabafo-explicação é o meu posicionamento diante do universo, dos sonhos, das certezas, das críticas e da realidade. E mais uma vez: o que é do homem o bicho não come. Boto fé em mim, em você, no mundo. E no seu amor.